sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A ECOÉTICA DE AVATAR

por Ana Celina Tiburcio*
A saudável e equilibrada convivência com a Natureza – de onde tiramos nossa sobrevivência por meio dos recursos renováveis e não-renováveis, com a nossa Casa; o Planeta Terra – e o nosso próximo; a Humanidade - é o que dá centralidade à vida, mantendo sua diversidade natural e cultural e garantindo sua perpetuação.


Neste olhar, podemos inaugurar uma nova velha ótica planetária de relacionamentos.


O longa ‘Avatar’, do diretor James Cameron, segundo nota publicada no Valeparaibano – em janeiro, atingiu marca de bilheteria que ultrapassou o campeão ‘Titanic’, do mesmo diretor. Avatar narra a batalha entre humanos e o povo na’’vi pelo domínio do planeta Pandora. Particularmente, nenhum grande enredo ou trama, no entanto, a boa dose de magia, beleza e valores, tri dimensionados na tela, o fazem especial.


O filme somos nós, terráqueos, além de flores, como compaixão, solidariedade, respeito, esperança, amor, perseverança, mas também, ganância, guerra, egoísmo, intolerância e muita destruição generalizada.


A Terra não é infinita, pois se trata de um Planeta pequeno com recursos limitados, muitos deles não-renováveis. Não temos como ignorar o paradigma que vivemos nos dias de hoje; a sustentabilidade do planeta traz inúmeras discussões e desafios, onde o ponto central é como garantiremos a vida de futuras gerações e a que preço.


Relatórios internacionais de organizações que trabalham para a sustentabilidade e, também, para o combate as mudanças climáticas, apontam o consumismo como o grande vilão de um ciclo vicioso – comprar, descartar, comprar mais e descartar mais. Globalmente, os ecossistemas estão a caminho da exaustão em razão desta ‘cultura’ utilitarista, devastadora e consumista imperante que produz uma taxa de iniqüidade ecológica e social insuportável pelo Sistema-Terra.


Pode-se citar o “Relatório da Avaliação Ecossistêmica do Milênio” divulgado pela ONU (2005) e o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) que apresentam cenários apontando as atividades antrópicas como fator de mudanças fundamentais e, em muitos casos, de forma irreversível, a diversidade da vida no Planeta Terra.


Contudo, há a convicção de que a crise não poderá ser resolvida com medidas somente políticas e técnicas, mas sim, somadas a forças mundiais ao redor de uma nova sensibilidade ética, novos valores, outras formas de relacionamento com a natureza e novos padrões de produção e consumo – como novos consumidores também!


Nesta contramão, em seu relatório anual, divulgado no fim de janeiro, o Worldwatch Institute (WWI) adverte que o consumismo é ameaça ambiental global e que hábitos de consumo americanos se espalharam para países emergentes, como Brasil e China. Ainda, WWI diz que o culto do consumo e da ganância pode acabar com todos os avanços das ações governamentais em direção ao combate das mudanças climáticas e de mudanças para uma economia de eficiência energética.


Motivada por textos do ecologista e teólogo, Leonardo Boff, que coloca como missão do ser humano a de ser o cuidador da Terra, apresento brevemente os Quatro Princípios da nova ética da sustentabilidade, os quais se realizam na vivência de quatro virtudes imprescindíveis.


O primeiro Princípio é o da afetividade – tem a ver com a estrutura de base do ser humano; a sensibilidade ou inteligência emocional. Já não sentimos mais e nos fazemos insensíveis a valores, à solidariedade, ao cuidado, à amorosidade e à compaixão, dimensões que não têm preço, mas têm valor e dão sentido à nossa vida. O segundo Princípio é o cuidado/ compaixão – porque o cuidado é o condicionar prévio a tudo o que possa acontecer ao ser humano. É a capacidade de respeitar o outro como outro.


Já o terceiro Princípio para uma ética sustentável é a cooperação. Todas as energias e todos os seres cooperam um com o outro para que se mantenha o equilíbrio dinâmico, se garanta a diversidade e todos possam co-evoluir. Por fim, o quarto Princípio é o da responsabilidade. Ser responsável é dar-se conta das conseqüências de nossos atos. Estes quatro Princípios podem inspirar políticas limitadoras de agressão à natureza, funcionando como quatro pilastras capazes de sustentar um novo ensaio civilizatório, mais benevolente para com a natureza e a vida.


Sem esquecer as quatro Virtudes para uma nova ética da sustentabilidade; temos a hospitalidade – temos o direito de ser acolhidos e perambular pelo nosso Planeta, a segunda Virtude que garante a sustentabilidade natural e social é a convivência – todos os seres formam uma comunidade cósmica e biótica.


A terceira Virtude que gera sustentabilidade é o respeito a todo o ser – cada ser tem valor intrínseco. Esse respeito pelo outro nos obriga à tolerância – acolhendo as limitações e até defeitos dos outros, elaborando formas não destrutivas de resolver conflitos. A quarta Virtude é a comensalidade – vale dizer, o comer e o beber juntos. Se estivermos morrendo de fome, de que valerá a hospitalidade uns para com os outros, a convivência fraternal e respeitar e tolerar nossas diferenças?


A mudança de rumo é impostergável. Estamos vivendo um novo tempo, porque já não se trata mais de cuidar apenas do meio ambiente. É bem mais do que isso: a questão é não ultrapassar limites que colocam em risco a própria vida. A insustentabilidade, juntamente com as mudanças climáticas, ameaça a sobrevivência da espécie humana.


Pontuando a tese do economista e filósofo francês, Serge Latouche, que trata do decrescimento sustentável para diminuirmos a devastação dos recursos naturais do planeta. Suas idéias se chocam com o estilo de vida dos habitantes das grandes cidades do mundo e nos chama de pervertidos (leia-se consumistas).


Divulgação mais ‘radical’ vem de um estudo de uma entidade britânica, divulgado também em janeiro, e defende que a única forma de controlar o aquecimento global é que os países ricos interrompam seu crescimento econômico.


A tese defendida pela Fundação Nova Economia (NEF, na sigla em inglês), coloca no relatório "Crescimento não é possível: por que as nações ricas precisam de uma nova direção econômica", explica que o crescimento econômico incessante está consumindo a biosfera do planeta além de seus limites.


Há a necessidade de sociedade, empresas e governo frearem o crescimento quantitativo - números, cifras e volumes - dando lugar e priorizando o crescimento QUALITATIVO. Precisamos de mais qualidade, nos modos de produção, nos produtos que consumimos, nas relações, na sociedade que vivemos e principalmente que queremos viver; focar e trabalhar no crescimento da nossa qualidade de vida que se refletirá na do Planeta.


É preciso haver uma transformação global de valores e atitudes, criando a verdadeira cidadania planetária. Os Princípios e Virtudes supracitados fundamentam uma nova espiritualidade, uma nova experiência do sentida da Vida Humana, resultando na cultura da paz, e um final feliz... E você, de que lado está?


*Ana Celina Tiburcio é Relações Públicas especializada em Comunicação e Educação para a Sustentabilidade

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